Sócio, o escritório está em suas mãos?

nov 23
2009

Quando se questiona a gestão financeira de escritórios de advocacia, o resultado quase unânime apresentado reflete uma ausência de controle financeiro ou imprecisão de dados. Falar de planejamento financeiro de médio e longo prazo, então, parece complicar ainda mais, e quem sabe até inviabilizar o diálogo. Mas o que se pretende aqui não é mostrar as barreiras, e sim derrubá-las.

Grande parte dos escritórios limita seus relatórios financeiros à simples listagem do contas a pagar e a receber. É pouco! Há alguns pontos específicos que merecem atenção especial. Algumas perguntas precisam ser respondidas, e caso não seja possível fazê-lo de imediato, se torna necessário buscar dados, transformá-los em informação para municiar sócios na tomada de decisões quanto ao rumo financeiro do escritório.

Quanto você está faturando?

O faturamento é o quanto seus clientes pagam pelos serviços jurídicos prestados pelo seu escritório. São os contratos de honorários ativos. O escritório precisa ter dados relativos a cada um dos serviços prestados e a quais clientes estão relacionados. O conhecimento do faturamento por período, cliente, área, etc. facilita a visualização a respeito de como a receita do escritório tem se comportado ao longo do tempo.

Uma noção clara sobre o faturamento possibilita saber quem são os maiores clientes, que serviço traz mais receita, e como a receita está distribuída entre os clientes.

Outra informação importante se refere ao past due, ou seja, o faturamento que está em atraso. Nem sempre o faturamento previsto coincide com o real, e se não existir o controle de ambos, também não terá como criar critérios para aproximá-los o máximo possível.

Qual é a produtividade da sua equipe?

Alguns escritórios remuneram suas equipes pelo repasse de percentuais por indicação de clientes ou mesmo por faturamento da área em que atua. No entanto, não controlam a produtividade e em alguns casos sequer conhecem o quanto cada área gera de receita.

A produtividade do escritório relaciona-se com o tempo disponível de todos os advogados que ali trabalham e como esse tempo se reflete no resultado final, tanto do uso desse tempo como dos honorários a eles relacionados. No início de cada mês a equipe jurídica tem um número X de horas para utilizar em serviços prestados aos clientes. Quanto melhor for aproveitado esse tempo de forma que permita ao escritório trabalhar mais e com a mesma equipe, maior será a produtividade, com conseqüente aumento de honorários.

Se não é possível controlar as horas trabalhadas por cada profissional ou equipe em cada caso e para cada cliente, o escritório não saberá como tem dedicado o estoque de tempo em função dos mesmos.

Pequenos hábitos de controle diário do trabalho realizado pelos advogados é um bom começo. Com determinação e disciplina chegar-se-á ao controle de produtividade por advogado, área, cliente e escritório. E assim, permitirá ao escritório saber do seu valor porque conhecerá verdadeiramente o que sua equipe está fazendo.

Quanto você está gastando?

Esta lista parece não ter fim… Remuneração de advogados, impostos, bolsa-auxílio de estagiários, salários do administrativo, despesas com aluguel, honorários do contador, contas de água, energia e telefone, papelaria, manutenção dos computadores, compra de livros, passagens aéreas, inscrições para cursos e palestras, etc.

As despesas devem ser divididas em diretas (ligadas à produção jurídica: remuneração de advogados e estagiários) e indiretas (as demais: ocupação, energia, pessoal administrativo, relações públicas, etc.). Assim como no faturamento, o ideal é que seja feito o controle de despesas por equipe, área e escritório, com todas as informações necessárias para que se saiba o quanto gasta e com o que, em determinado período.

Mas será que todos os gastos efetuados pelo escritório são mesmo de sua responsabilidade? Vejamos: algumas despesas são recuperáveis, ou seja, são despesas dos clientes adiantadas pelo escritório, como por exemplo, cópias, telefone, correios, cartório, quilometragem e outras que podem significar até 20% da receita mensal do escritório. Essas despesas podem e devem ser repassadas aos clientes, mas para tanto, além de estar prevista no contrato de honorários, será necessário o controle rigoroso para a devida prestação de contas.

O escritório em suas mãos!

A primeira coisa a fazer para que os sócios assumam o controle do que acontece com o financeiro do escritório é abandonar a idéia equivocada de que este setor se resume a pagar as contas do mês e colocar no bolso os honorários. É necessário fazer com que a gestão financeira funcione com a devida profissionalização, de preferência sob a responsabilidade de um profissional apto e treinado para tanto.

Um bom planejamento financeiro permitirá ao escritório estabelecer metas para redução de despesas, aumento de receita, recuperação de faturas em atraso, provisão de sobras de caixa, plano de investimentos, fundo de capital de giro, melhor distribuição dos resultados, etc.

Com isso, será possível evitar os altos e baixos da profissão, garantindo o equilíbrio necessário à equipe para trabalhar com tranqüilidade e dar o seu melhor na prestação dos serviços jurídicos. Essa é a conseqüência de ter o escritório em suas mãos.

Lara Selem é advogada, escritora e consultora em Gestão de Serviços Jurídicos. Sócia da Selem, Bertozzi & Consultores Associados. Executive Master in Business Administration pela Baldwin Wallace College (EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela EDESP – FGV/GVLaw (SP). Autora dos livros “Estratégia na Advocacia” (Juruá, 2003), “Gestão Judiciária Estratégica” (ESMARN, 2004), “A Reinvenção da Advocacia” (Forense/Fundo de Cultura, 2005).

Flávia Cançado é consultora da Selem, Bertozzi & Consultores Associados. Advogada e pós-graduanda em Gestão Empresarial pela OPET (PR).

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As quatro estações da advocacia

set 21
2009

Ouvindo um dos mais belos concertos para instrumentos de corda já criados, As Quatro Estações do italiano Antonio Vivaldi, fica claro o quanto os ciclos da Natureza se repetem nas nossas vidas, em especial na nossa vida profissional. Pode parecer estranho comparar a Natureza e Advocacia através de um concerto, mas não é. A vida acontece em ciclos e em ciclos evolui nossa profissão. A música entra como pano de fundo, mostrando que o princípio que move a advocacia é a arte de criar teses únicas, assim como o que move a música é a arte de criar melodias únicas. Assim se formaram os grandes mestres, e assim sempre será.

As Quatro Estações foram originalmente publicados em 1725, incluídos numa coleção de doze concertos de Vivaldi, sob a designação genérica de “Il Cimento dell’ Armonia e dell’ Invenzione” (“A luta da harmonia e da criação”). As Quatro Estações correspondem aos primeiros quatro desses doze concertos e traziam já os títulos que hoje lhes atribuímos – “A Primavera”, “O Verão”, “O Outono” e “O Inverno”. Eles são complementados por quatro sonetos, um para cada estação, para alcançar as cenas imaginadas por Vivaldi, cuja tradução livre de alguns trechos segue abaixo. Experimente ouvir As Quatro Estações de Vivaldi enquanto lê este artigo.

A Primavera
Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam as aves com alegre canto,
E as fontes ao expirar do Zeferino
Correm com doce murmúrio.

Vivaldi inicia com A Primavera, estação das flores, numa alegre melodia interpretada pelos violinos mostrando o despertar, o renascer da Natureza. Há uma ascensão progressiva da luminosidade para descrever o nascimento de uma natureza transbordante de vida, daí que o ambiente esteja inundado por luz e cor. É o início da vida.

Para nós, é o momento em que, cheios de energia, planos e sonhos, deixamos os bancos das Faculdades de Direito para desvendar um mundo novo, o da Advocacia, onde poderemos colocar em prática toda teoria que aprendemos. É um tempo de festa e de esperança. Temos a suavidade da inocência, do idealismo, da pureza. Nascemos aqui, como advogados. E em nossas mentes vibram os planos para o futuro. Se eles estiverem no papel, maiores as chances de se concretizarem.

O Verão
Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.

No segundo concerto, O Verão, estação do calor, um outro ritmo aparece, com breves motivos realizados pela orquestra separados entre si por silêncios, que parecem evocar a respiração lenta e profunda, não esquecendo as escalas descendentes nos violinos, continuadas pelas violas e baixos, e repetidas em tom mais alto evocando um ambiente relaxante e silencioso.

Nesse ciclo, nossa Advocacia passa pelo calor da prática e da realidade cortante do dia-a-dia. Somos forçados a aprender fazendo, acertando e errando, e isso muitas vezes é doloroso como o sol ardente e denso do meio-dia. Por vezes, pensamos em desistir, mas nossas experiências também trazem a brisa que nos faz continuar acreditando nos ideais que nos moveram até aqui. E que, apesar de nuvens negras, após a tempestade virá o intenso aprendizado. É a juventude da nossa Advocacia. Lidar com clientes, organizar o escritório, comandar uma equipe, experimentar casos novos, administrar honorários são objeto de reflexão, aprendizado e de escolhas estratégicas.

O Outono
Faz a todos interromper danças e cantos,
O clima temperado é aprazível;
E a estação convida a uns e outros
Ao gozar de um dulcíssimo sono.

Na terceira parte, O Outono, estação da queda das folhas e do nascimento dos frutos, Vivaldi inicia com a orquestra a interpretar uma bela e simples melodia dançante. Da mesma forma, podemos visualizar esta dança através do vento de Outubro (no hemisfério norte) que despe freneticamente os arvoredos para, de novo, a Natureza cair num adormecimento profundo. A Natureza fica com as suas cores esbatidas, mergulhando na hibernação da terra. Outono é a apoteose da cor. É o triunfo da grandeza.

Aqui, nossa Advocacia adquire o equilíbrio, nossas ações são frutos de reflexões, nossa energia é mais contida e melhor utilizada. Já alcançamos várias e bem sucedidas metas que reforça que estamos no caminho certo. As dores que já sofremos no aprendizado servem de ventania para levar todas as folhas amareladas do livro de nossa vida. Pensamos mais antes de agir. Somos mais cautelosos que antes. Nossa Advocacia está madura, pronta e serena. Assistimos nossa missão ser concretizada e reforçamos nosso posicionamento. Os problemas continuam a existir, mas já sabemos como lidar com eles.

O Inverno
Agitado tremor traz a neve argêntea;
Ao rigoroso expirar do severo vento
Corre-se batendo os pés a todo momento
Bate-se os dentes pelo excessivo frio.

No quarto e último concerto d’As Quatro Estações, Vivaldi apresenta O Inverno, estação do frio intenso. Os primeiros acordes dissonantes da orquestra mostram a queda da neve e o rigoroso frio do Inverno. A música, através do violino, em escalas descendentes e arpejos, anunciam a neve que chega. A orquestra acompanha o violonista marcando a harmonia e o ritmo, imitando o vento frio e arrepiante que gela os rios, afasta os pássaros ávidos de calor e desnuda as árvores.

Nossa Advocacia parece velha e cansada, como se tivesse perdido a beleza e o vigor da juventude, como se compreendesse que tudo passa e que seu dever foi cumprido. É o momento da renovação, de deixar a nova primavera renascer. De mudar o que precisa ser mudado. De enfrentar as decisões difíceis e recomeçar de novo, reinventar a nossa prática com a mesma energia que nos moveu nos nossos primeiros anos de profissão.

Enfim, os ciclos de mudanças acontecem a cada instante, não importando em qual momento nos encontremos. O que importa realmente são as decisões a serem tomadas. “Il Cimento dell’ Armonia e dell’ Invenzione” significa lutar pelo equilíbrio entre as regras e a criatividade. E isso não é apenas uma necessidade, mas uma missão fundamental para sobreviver nas quatro estações da Advocacia.

Lara Selem é advogada, escritora e consultora em Gestão de Serviços Jurídicos. Sócia da Selem, Bertozzi & Consultores Associados. Executive Master in Business Administration pela Baldwin Wallace College (EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela EDESP – FGV/GVLaw (SP). Autora dos livros “Estratégia na Advocacia” (Juruá, 2003), “Gestão Judiciária Estratégica” (ESMARN, 2004), “A Reinvenção da Advocacia” (Forense/Fundo de Cultura, 2005).

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